terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Fé contra a Razão


             
         Felippe Ramos do Nascimento


      Um extremo que temos presenciado nas Igrejas, é o distanciamento da Fé e Razão. Uma onda anti-racionalista com tendências fideístas, tem entrado nas Igrejas principalmente nos movimentos leigos de natureza carismática. [1] É importante frisarmos que este espírito do anti-racionalismo tem perturbado a Igreja, olham para o conhecimento com desprazer e desconfiança.
 São facilmente observadas na Igreja. As pessoas já não fundamentam sua fé no conhecimento. Advogam a superioridade das experiências espirituais em relação à assimilação intelectual das verdades da palavra de Deus. Dessa forma, a fé tem sido considerada um ato cego da vontade. É a decisão de crer em alguma coisa, independentemente da razão ou ignorando a falta de evidências consistentes sobre o que se crê. [2]
            Segundo a análise de Stott, esta postura é típica dos movimentos pentecostais que fazem da experiência o principal critério da verdade. E tomando proporções maiores e sérias são os neo-pentecostais com a sua declaração anti-intelectual. Eles afirmam que no fundo o que importa não é a doutrina, mas a experiência. Isto equivale a por a experiência subjetiva acima da verdade de Deus revelada. Na realidade, o anti-intelectualismo é uma válvula de escape para fugir da responsabilidade dada por Deus do uso cristão de nossas mentes. [3]
            Francis Chaeffer nos mostra algumas consequências de se lançar a fé contra a racionalidade. A primeira consequência de colocar-se o Cristianismo no andar superior diz respeito à moral. Surge a questão de como estabelecer-se um relacionamento de um Cris­tianismo no andar superior para com a esfera da moral na vida cotidiana. A resposta simples é que tal não é possível. Como vimos, não há categorias no andar supe­rior; portanto, não há maneira de provê-lo com qualquer espécie de categorias. Não se pode ter verdadeira moral no mundo real uma vez feita essa dissociação. O que nos res­ta, em tais circunstâncias, é um formulário de normas éticas inteiramente relativas.[4]
            A segunda consequência exposta por Shaeffer é que não se tem uma base adequada para o direito, para a lei. O sistema legal da Reforma era, todo ele, calcado no fato de que Deus revelara algo real na própria essência das coisas comuns da vida. Para o homem da Reforma havia uma base para a lei, para o direito. O ho­mem moderno não apenas repudiou a teologia cristã, mas também alijou a possibilidade do que nossos ances­trais esposavam como base para a moral e para o direito.[5]
Outra conseqüência é que tal rejeição põe por terra a solução que se propõe ao problema do mal. A resposta que lhe dá o Cristianismo se alicerça na Queda concebi­da como ocorrência histórica, no tempo e no espaço, real e completa. O erro de Tomás de Aquino foi a noção de uma Queda incompleta. A verdadeira posição cristã, entretanto, é que, no espaço e no tempo e na história, houve um homem não programado que fez uma escolha, rebelando-se realmente contra Deus. Se rejeitar esta solução, como expõe Shaeffer, não há como fugir à chocante afirmação de Baudelaire: "Se há um Deus, é-o o Diabo".[6]
            A quarta consequencia que Shaeffer nos mostra de se colocar a fé superior a razão é sacrificarmos nossa possibilidade de evangelizar a verdadeira gente do presente século no âmbito de seu próprio pensamento. O homem moder­no anseia por outra resposta que a de sua própria perdi­ção. Tem, pois, o Cristianismo a oportunidade de falar claramente quanto ao fato de que a resposta que oferece encerra exatamente aquilo de que se desesperou o ho­mem moderno — a unidade de pensamento. É uma res­posta una que abarca a vida como um todo. É verdade que o homem terá de renunciar a seu arraigado racionalismo, entretanto, com base no que se pode discutir, tem ele plena possibilidade de recobrar a racionalidade.[7]
Dessa forma, a Igreja e Sociedade devem resgatar princípio da racionalidade da Fé. São as duas que possibilitam o homem a enxergar a verdade. Em nenhum momento, a sociedade pode eliminar a fé, e o Cristianismo desconsiderar a razão. Segundo Stott, o verdadeiro Cristianismo dá ênfase à importância do conhecimento, rechaça qualquer anti-intelectualismo como algo negativo e paralisante e salienta que muitos de nossos problemas existem por causa da nossa ignorância. Sempre que o coração estiver cheio e a cabeça vazia, há o surgimento de um perigoso fanatismo.[8]
Esse é o desafio que a Igreja deve enfrentar. Mostrar na sociedade que a razão e a fé constituem como que duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Se a Sociedade e a Igreja consegue enxergar esta verdade bíblica, novos rumos poderão seguir a história, e assim, as pessoas terão a possibilidade de contemplar a verdade e retornar ao propósito do Criador.


           


[1] João, B, LIBÂNIO. Op. Cit, p. 181.
[2] John, STOTT. Crer É Também Pensar. p. 7 e 8.
[3]Ibid, p 9.
[4] Francis, SHAEFFER. Op. Cit, p. 79.
[5] Ibid, p. 79 e 80.
[6] Idem
[7] Francis, SHEFFER. Op. Cit, p. 81.
[8] J, STOTT. Cristianismo Autêntico, p. 344.

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