sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fé, Razão e Sociedade




Felippe Ramos do Nascimento          

          A sociedade atual, fruto da construção que perdurou séculos, desconsidera a fé em sua totalidade, dando toda credibilidade a razão. Como expõe Libânio, o desenvolvimento da razão autônoma conduziu o pensamento moderno a um pluralismo, relativismo e ceticismo cujas consequências mais graves são as crises de sentido. Contentando-se com verdades parciais e provisórias, tal pensamento não faz perguntas radicais sobre o sentido e o fundamento último da verdade.[1]
          Podemos perceber o resultado dessa sociedade e chegar à conclusão que onde se tira a religião gera uma verdadeira desordem ética, moral e social. Utilizando as palavras de Libânio, ele descreve que este processo gerou um verdadeiro ecocídio; produziu um verdadeiro exército de pobres; tem criado um coração humano egoísta, individualista, fechado, condenado à solidão, consumista, sôfrego de prazeres que não o fazem felizes. Ele mostra que este homem pós-moderno, resultado do Racionalismo, está na ameaça no niilismo de valores, de bem, de verdade. E acompanha-o a melancolia cinzenta. E num movimento de reação e de ressurreição diante de tanta morte simbólica, ecológica e humana, abrem-se espaço para a dimensão estética, lúdica, gratuita, festiva, religiosa da existência.
          Diante dessa realidade, conseguimos entender a indignação de G.K.Chesterton quando escreve uma crítica à razão da forma que a sociedade racionalista a via. Ele critica seriamente o cético arrogante e mostra que o elemento principal da insanidade é a razão usada sem raízes, à razão no vazio.[2]
           Chesterton nos leva a ver a importância do místico, do mistério, da fé. Podemos constatar isto em suas palavras:


Enquanto se tem mistério se tem saúde, quando se destrói o mistério se cria a morbidez. O homem comum sempre foi sadio porque o homem comum sempre foi um místico. Ele aceitou a penumbra. Ele sempre teve um pé na terra e outro num país encantado. Ele sempre se manteve livre para duvidar de seus deuses, mas, ao contrário dos agnósticos de hoje, livre também para acreditar neles. Ele sempre cuidou mais da verdade do que da coerência. Se via duas verdades que pareciam contradizer-se, ele tomava as duas juntamente com a contradição. Sua visão espiritual é estereoscópica como a visão física: ele vê duas imagens simultâneas diferentes, contudo, enxerga muito melhor por si mesmo.[3]


          Chesterton nos fala que o místico se baseia no segredo de que o homem pode compreender tudo com a ajuda daquilo que não compreende.[4] Ele sabia que a fé e a razão, deveriam andar juntas, que é na relação que o homem consegue compreender aquilo que sua mente não é capaz de sondar, e assim, poder deleitar-se na percepção da verdade.
          Portanto, devemos levar a sociedade a ver dois aspectos importantes em relação à razão. O primeiro é o apresentado por Ioannes Paullus, onde ele nos descreve que são os elementos da fé que auxilia a razão e ajuda na compreensão do mistério. Esses servem para conduzir mais longe a busca da verdade e permitir que a mente possa autonomamente investigar inclusive dentro do mistério.[5]
          O segundo é exposto por Alan Richardson, que nos mostra que a razão deve ser justificada ou corrigida pela fé. Sem fé cristã, a filosofia poderia, até certo ponto, se aproximar da verdade, mas não poderia saber que assim o fez. O progresso atual da história da filosofia, contudo, nos mostra que ela facilmente conduz ao erro positivo ou a um ceticismo radical.[6]


[1] João, B, LIBÂNIO. Op. Cit, p. 187.
[2] G.K.CHESTERTON. Ortodoxia, p. 47.
[3] G.K.CHESTERTON. Op. Cit., p 48.
[4]Idem
[5] Ioannes, PAULUS. Op. Cit, p 6.
[6] A, RICHARDSON. Op. Cit,. p 183.

Um comentário:

  1. Meu, muito bom. Um tratado filosófico. Muito bem alinhavado, a questão da fé com o desmoronamento moral do homem contemporâneo. A crítica da razão pela razão, que fragmenta o homem e o penitencia a eterna incompletude e divisão. Parabéns.

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