terça-feira, 3 de abril de 2012

OS CRITÉRIOS DO AMOR


PAULO BRABO
Extraído do Livro: "A BACIA DAS ALMAS"


Este é um mundo de retribuição, em que ninguém ama quem não tem nada a oferecer. Quem são os nossos favoritos? Os notáveis, os telentosos, os destacados, os fluentes, os bonitos, os ricos, os famosos, os sábios, os espirituais, os afinados, os inteligentes, os que lembram o nosso nome. Quanto mais admiráveis nos parecem as qualidades de alguém, mais naturalmente – mais inevitavelmente – essa pessoa parecerá merecedora do nosso amor.
Nossa tendência mais natural é amar as pessoas pelo que são capazes de fazer, seja esta capacidade efetiva ou potencial. Nisso consiste o que chamo de Lei Crua do Amor: não amamos as pessoas, amamos as competências.
Com raras exceções, a Lei Crua do Amor rege todos os relacionamentos e todas as nossas afeições. Sei muito bem aqueles que me sinto tentado a amar: os virtuosos, os compassivos, os articulados, os bonitos, os fluentes, os criativos, os destemidos, os galantes, os que sabem dançar, os indomáveis, os modestos, os heróis que não conhecem o seu próprio valor. São estas as competências que estão no topo da minha lista. Mas cada pessoa estabelece o próprio critério de seleção. O que temos em comum é a tendência de amar aqueles que demonstram ter as competências que admiramos.

A Lei Crua do Amor: não amamos as pessoas, amamos as competências

A Lei Crua do Amor determina ainda como estimamos o próprio papel num relacionamento – nosso valor. É por isso que tememos tanto a doença e a velhice, porque sabemos que estão a espreita, esperando o momentos de arrancar de nós as competências que nos são mais caras, aquelas e torno das quais construímos nossa identidade. Os primeiros sinais bastarão para nos colocar em parafuso: a primeira falha de memória, a primeira barbeiragem no trânsito, a primeira incontinência urinária, a primeira desafinada, a primeira queda de cabelo.
            Porque tememos desta forma a perda das competências? Acontece que sabemos muito bem que as competências dos outros determinam em grande parte nossa afeição por eles. Intuímos, pela natureza inclemente dos próprios critérios, que a perda de uma competência fará que nos tornemos menos atraentes e menos dignos de amor aos olhos dos outros.
            Aqueles que não tem alguma competência para oferecer – os feios, os desajeitados, os que não sabem cantar, os que não sabem falar, os que não sabem escrever, os que não sabem jogar bola, os que não sabem agradar – intuem por sua vez, que nunca serão amados de forma unânime e intensa como os notáveis. Não tem competência em grau e quantidade suficientes para merecer nosso amor, e sabem disso.
            Jesus viveu, naturalmente, para denunciar a Lei Crua do Amor. Ele convidava, de forma singela, a que adotássemos um novo e notável critério, que é, incrivelmente, a ausência de qualquer critério.
            A mensagem de Jesus deixa claro, em primeiro lugar, que na perspectiva de Deus, na perspectiva do universo, as competências que tanto celebramos e redundantemente admiramos equivalem a precisamente nada – talvez menos. Se Deus fosse premiar a competência, não premiaria ninguém. É por isso, por não julgar as pessoas pelas competências que têm para oferecer, que Deus faz chover sobre justos e injustos. É com base no rigoroso critério do critério algum que ele derrama do seu sol sobre heróis e marginais.
            Jesus opina que na perspectiva divina a única competência que de fato conta é a competência moral, a capacidade de não fazermos o mal aos outros e a habilidade correspondente de fazermos o bem a eles. Todo o resto é acessório e deve ser descartado do nosso caderninho de admirações. Deus, no entanto, conhece-nos o bastante para não decidir julgar-nos nem mesmo por esta competência essencial. Na verdade, explica Jesus, a mais contundente demostração de competência moral está precisamente na nossa disposição em amar os outros, e assim o círculo se fecha.
            O Filho do Homem desafia-nos a ser nisso singulares (santos) como Deus é, disparando amor arbitrariamente, como metralhadoras, abandonando definitivamente critérios usuais de competência. Essa regra divina é a lei distributiva do Amor, que pode ser expressa desta forma: ninguém merece, por isso todos podem ter.

A Lei Distributiva do Amor: ninguém merece, por isso todos podem ter

            Quem será capaz de sentir-se atraídos pelos   que não têm coisa alguma para oferecer? Quem será capaz de aceitar os desprovidos de competência? Talvez aquele que desperte para a consciência de que tem o que não merece; esse ousará, quem sabe, distribuir. Esse estará alterando a tessitura do mundo.


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